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Desde sempre ela lembrou de tudo. De tudo um tanto, sempre e nunca. Foi a terceira de quatro filhos a espichar a barriga da mãe.

Na família sempre encontrou sua razão de existir e se prepara para construir morada nos braços de um engenheiro civil, de quem se enamorou nos tempos idos do colegial.

Desde sempre foi curiosa e muito afeita aos estudos, o que não a impediu de ficar sem saber para onde ir quando cumpriu o estudo regulamentar.

Sem direção certa, foi trabalhar. Começou como vendedora e ao perceber o grande mercado do segmento da beleza, buscou aprimoramento no Senac. Se desencantou e parou.

Como a vida só é possível não se apagando aquilo que se viveu, e fazendo disso oportunidade para construir algo novo, quando sua mãe ficou internada por muitos meses, a fisioterapia entrou para dividir a cena com a psicologia.

Ela descobriu que cuidar do próximo era o GRANDE barato! Não queria medicar ou mexer com sangue, achava importante por demais ouvir o que o outro tinha a dizer, mas poder tocar para curar, não tinha preço!

Se encantou com a delicadeza, o amor e a competência daqueles profissionais que cuidaram da pessoa que ela mais ama na vida – sua mãe – mas também viu o lado negro do ofício: profissionais alheios às necessidades dos pacientes nos momentos mais vulneráveis.

Como cada um encontra seu caminho na tentativa de lidar com suas marcas e dar um novo sentido àquilo que o constituí, encarou o desafio e foi estudar.

Não faltou quem a desmotivasse enaltecendo a desvalorização da profissão e dificuldades de tirar o sustento dali. Mas ela seguiu adiante.

Os quatro anos de faculdade que cursou, foram os mais incríveis vividos até então. Com cada mestre, a certeza da escolha certa ficava mais latente. A euforia do primeiro estágio embalada pela calmaria que só a convicção de estar em casa pode oferecer. As pessoas que conheceu e a teoria se unindo a prática na formação de identidade.

Na beleza dos dias imperfeitos, seu contato com pacientes acima dos 50 anos encontrou morada e o último estágio em uma casa de repouso definiu o que faltava do trajeto. A especialização que faria ao terminar a graduação ganhou forma.

Escolheu gerontologia e do ano difícil e intenso que teve, não se arrepende – cresceu – aprendeu que cada vida humana se parece com um vitral, feito com as marcas de todas as etapas já vividas.

É um mundo novo, que escapa a cada esquina – inclusive porque não tem esquina – mas ela segue caminhando, ora aqui na casa de um paciente, ora ali no Residencial para Idosos onde oferece o seu melhor.

Essa, foi a história de Andréia A. Sousa, 25 anos, nascida em São Paulo, Fisioterapeuta, com Especialização em Gerontologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade do HCFMUSP.