Por Elisa Yule

Roberta França é fogo.

Magnetismo e vaidade não tem medida.

Plena em decotes, aberturas, saias justas, minissaias e brilho, muito brilho.

Empreendedora capaz de afrontar responsabilidades difíceis. Determinada.

A medicina a escolheu aos seis anos de idade, bem naquela fase em que ela mais gostava de brincar na rua, jogar queimada, subir em árvore, assistir futebol e ler…biblioteca sempre foi sinônimo de magia. Ali ganhou passaporte e viajou por épocas e lugares distantes.

Se eu pudesse colocar neste texto um fundo musical para ilustrar esse pedaço da história, certamente seria Milton Nascimento com:” …há um menino, há um moleque, orando sempre no meu coração…ele fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor…não posso aceitar sossegado qualquer sacanagem ser coisa normal…o solidário não quer solidão.”

Na família aprendeu sobre guerras e mudanças no mundo, além de concentrar sobre si todas as atenções até os seis anos. Foi filha, neta e bisneta exclusiva. Quando chegaram os irmãos mais novos – Débora e Bruno, foi ela quem ajudou a cuidar.

Vaidosa, aprendeu desde sempre a fazer unha e cabelo no salão da mãe. Tudo que brilha cai no gosto e aprovação. Não existe limite para cremes, perfumes e maquiagem.

Elegante e refinada, complexa e nada óbvia.

Aos 15 anos saiu de Beagá para fazer morada em Itajubá, cidade onde todomundoconhecetodomundo. Sempre de boa, escolheu a turma mais alto astral e cabeça feita para chamar de sua. O maior dos pecadilhos era dançar até o dia clarear.

No colegial, estudava de manhã e batia cartão na loja da Dona Tereza à tarde – gente boníssima – três vezes por semana a deixava sair mais cedo para o curso de inglês e redação – memória afetiva das boas que rende lágrimas e elogios rasgados nos reencontros. Saiu por conta do pré-vestibular e achou um jeito de ganhar um extra e estudar dando aulas particulares.

Ela é gargalhada, festa e multidão, embora o pai nem sempre aprovasse. Cantou e encantou na noite com seu violão, fez programa de rádio e perdeu as contas de em quantos carnavais se acabou no samba.

Vestibular foi época de sofrência, 1000 provas, 1000 dúvidas, muitos nãos até o sonhado SIM. A menina mineira, baixinha e da perna grossa ia estudar sua medicina, virar doutora e usar jaleco branco. Quase desidratou de tanto chorar.

Ela chegou ao Rio com 18 anos, mala, cara & coragem. A Mocidade Independente de Padre Miguel sagrava-se campeã do carnaval, Marcello Alencar era governador e o Flamengo, ergueu o caneco da Taça Rio.

Formou-se em 2002 e lá se vai muito chão. Muita luta.

Para ganhar bolsa de estudos na faculdade ela cantou no coral, para ter o dinheiro da xerox, vendeu Avon, vendeu Natura, fez unha e cabelo das amigas. Profunda em suas escolhas, fez amigos e encontrou alguns anjos da guarda que a ajudaram de formas inimagináveis.

Ela constrói todo dia a medicina que a habita – com respeito, estudo, dedicação e alma – decidiu que mais importante que tratar da saúde é tratar do ser humano, mostrando respeito, amor e acolhimento.

A escuta afetiva norteia sua prática e dá visibilidade ao que começou com uma página no Facebook com artigos, dúvidas de pacientes e canal de interação, que mal havia completado um ano e já contava com mais de 17 mil seguidores – motivo de sobra para virar portal e ter uma equipe multidisciplinar de profissionais atuando, sempre com a premissa de discutir e esclarecer temas importantes sobre como ter um envelhecimento saudável, digno e feliz e pelo direito de bem envelhecer.

Sua vida teve comédia, tragédia, tristeza, companheirismo, solidão, amor, vitória, derrota, coragem e medo. De tudo um pouco como toda gente.

Ela já teve um filho, plantou uma árvore, escreveu um livro e agora completa a Família Velharias, que se rendeu face à impossibilidade de evitar a contaminação pela alegria que seu sorriso encerra e pelo compromisso com a vida que sua alma assume.